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QUEIJO E OS VERMES – Carlo Ginzburg
O moleiro Domenico Scandella
- Menocchio é um homem pobre que tinha diante de si as autoridades: o seu
vigário e o inquisidor de Aquileia, o magistrado de Portogruaro. Ginzburg fala
na hierárquica opressão eclesiástica diante do moleiro Menocchio que teve um
fim diferente do moleiro Pellegrino Baroni, conhecido como Pighino – o Gordo,
processo em 1570 pelo Santo Ofício de Ferrara.
Os registros da
inquisição do século XVI, na Itália mostram o interrogatório de Menocchio,
suspeito de heresia. Segundo Peter Burker, Menocchio responde as perguntas de
forma detalhada e expõem sua visão de cosmos. Constrói sua cosmologia. Na visão,
no princípio era o caos, e os elementos formaram uma massa semelhante ao
queijo, e da massa aparece os vermes, que seriam os anjos. No tribunal, Menocchio
mencionou os livros que havia lido e como os interpretava.
“O queijo e os vermes”
é considerada uma história “vinda de baixo” – das classes operárias. Ginzburb
entende que Menocchio se comporta de modo diferenciado diante do tribunal. É
violento no ataque às autoridades e afirma que na lei, o papal, os cardeais, os
padres são tão ricos e que tudo pertence à Igreja e aos padres. “Eles arruínam os
pobres”. E continua: “mas, em nome de quê? O papa é homem, com a diferença de
que tem poder. E poder fazer!”.
Ribeiro diz que o
moleiro Menocchio é um herói, um mártir da palavra que no final do século XVI,
lê muito. Um homem relativamente simples, mas que lê, reflete e pensa. Sofreu
por suas ideias, isolado, preso e condenado à morte. O papa Clemente VIII
exigiu a morte de Menocchio no mês em que estava concluindo o processo contra o
ex-frade Giordano Bruno. Resistir à pressão tão imensa, diz Ginzburg, era
impossível, em pouco tempo Menocchio seria executado. E o autor conclui: “sabemos
muito sobre Menocchio, porém, não sabemos nada De Marcato ou Marco, e tantos
outros como ele, viveram e morreram sem deixar rastros”.
Luciano Menezes


