quarta-feira, 27 de março de 2019


O QUEIJO E OS VERMES – Carlo Ginzburg
O moleiro Domenico Scandella - Menocchio é um homem pobre que tinha diante de si as autoridades: o seu vigário e o inquisidor de Aquileia, o magistrado de Portogruaro. Ginzburg fala na hierárquica opressão eclesiástica diante do moleiro Menocchio que teve um fim diferente do moleiro Pellegrino Baroni, conhecido como Pighino – o Gordo, processo em 1570 pelo Santo Ofício de Ferrara.
Os registros da inquisição do século XVI, na Itália mostram o interrogatório de Menocchio, suspeito de heresia. Segundo Peter Burker, Menocchio responde as perguntas de forma detalhada e expõem sua visão de cosmos. Constrói sua cosmologia. Na visão, no princípio era o caos, e os elementos formaram uma massa semelhante ao queijo, e da massa aparece os vermes, que seriam os anjos. No tribunal, Menocchio mencionou os livros que havia lido e como os interpretava.
“O queijo e os vermes” é considerada uma história “vinda de baixo” – das classes operárias. Ginzburb entende que Menocchio se comporta de modo diferenciado diante do tribunal. É violento no ataque às autoridades e afirma que na lei, o papal, os cardeais, os padres são tão ricos e que tudo pertence à Igreja e aos padres. “Eles arruínam os pobres”. E continua: “mas, em nome de quê? O papa é homem, com a diferença de que tem poder. E poder fazer!”.
Ribeiro diz que o moleiro Menocchio é um herói, um mártir da palavra que no final do século XVI, lê muito. Um homem relativamente simples, mas que lê, reflete e pensa. Sofreu por suas ideias, isolado, preso e condenado à morte. O papa Clemente VIII exigiu a morte de Menocchio no mês em que estava concluindo o processo contra o ex-frade Giordano Bruno. Resistir à pressão tão imensa, diz Ginzburg, era impossível, em pouco tempo Menocchio seria executado. E o autor conclui: “sabemos muito sobre Menocchio, porém, não sabemos nada De Marcato ou Marco, e tantos outros como ele, viveram e morreram sem deixar rastros”.                                                                  

Luciano Menezes


terça-feira, 26 de março de 2019



O QUE É HISTÓRIA CULTURAL? – PETER BURKER
Para Peter Burke, os medievalistas Le Goff e Jean-Claude Schmitt deram importantes subsídios para a História Cultural popular. Nas décadas de 1980 e 1990 ficaram visíveis os interesses pelos estudos culturais. Esse aumento do interesse pela cultura popular teria tornado a Antropologia ainda mais relevante para os historiadores. O autor sublinha a ascensão do novo gênero – “a micro-história”, na década de 970, que diz respeito ao grupo de historiadores italianos: Edoardo Grendi, Giovanni Levi e Carlo Ginzburg.
Burke afirma que “micro-história” foi incialmente a reação contra o estilo de História Social que seguia o modelo de História Econômica que empregava métodos quantitativos e descritivos, e não davam importância à variedade de culturas locais. As obras “Montaillou” de Emmanuel Le Roy Ladurie, de 1975 e “O queijo e os Vermes”, de 1976 obtiveram êxitos e sucesso. “Montaillou” foi à contribuição à História Cultural com cultura material e mentalidades. “O Queijo e os Vermes” foi baseado em registros da inquisição em Friuli, no século XVI. Interroga-se o moleiro Domênico Scandella – Menocchio.
Burke destaca a figura de Michel de Certeau. As semelhanças entre as suas ideias e as de Foucault e as de seus contemporâneos, sobretudo, Bourdieu, com quem dialogou. Certeau inverteu Foucault e substituiu o seu conceito de disciplina pelo o de “antidisciplina”.  A ideia de “prática” de de Certeau, tem muito em comum com a de Bourdieu, porém, ele criticou a noção de “habitus” que envolveria a ideia de que as pessoas comuns não têm consciência do que fazem.
Para Burke, se de Certeau e Foucault estão corretos acerca da importância da construção cultural, então toda história é História Cultural. Uma sugestão é que os historiadores precisam explorar os limites da plasticidade cultural. Segundo Burke, a História Cultural sugere uma ênfase em mentalidades e sentimentos e não em ideias e sistemas de pensamento. E, assim, ressalta que os problemas diferentes exigem métodos diferentes, ou seja, o exame do tema por meio de um único método acaba empobrecendo a História Cultural.                                     

Luciano Menezes




domingo, 24 de março de 2019


DA MORTE. METAFÍSICA DO AMOR. DO SOFRIMENTO DO MUNDO – SCHOPENHAUER
Schopenhauer afirma que os homens se assemelham a relógios a que se dá corda e eles trabalham sem saber a razão. A cada homem que vem ao mundo, o “relógio” da vida humana recebe corda novamente – “repete-se mais uma vez o velho estribilho da eterna caixa de música”. Vemos sofrimentos e lutas íntimas intermináveis para todos os lados em um mundo que se dissipa eternamente.
Segundo Schopenhauer, o temor da morte é o reverso da vida, comum ao nosso ser. Em cada animal, junto com o cuidado inato com a conservação está, também, o medo de inato da aniquilação. Todavia o apego à vida parece insensato após um exame ponderado. Observa-se que o “não ser” depois da morte não é diferente daquele “não existir” anterior ao nascimento. Então, toda infinidade de um tempo fluiu quando não erámos, mas isso não nos aflige. Um tempo infinito ecoou antes de nascermos. Para Plutarco, antes do nascimento e depois da morte não somos nada.
Afirma-se que a esperança da imortalidade da alma vem sempre ligada a de um mundo melhor. Isso mostra que o mundo presente não vale muita coisa. O filósofo diz que a doce satisfação nos semblantes dos mortos é o alívio singular à força motriz que o dirige. Cessam-se por completo as funções vitais e a morte surge como uma amiga daqueles que sofrem doenças incuráveis ou desgostos inconsoláveis. É o término de uma existência rica em sofrimentos e pobre em felicidades.
Aqui, o sono e a morte não tem diferença; e o medo da morte é uma superstição. O nascimento e a morte se seguem rápido e sucessivamente. Todas as existências estão destinadas ao aniquilamento. Ressalta-se a sentença atribuída a Hermes Trismegisto: “seres surgem do nada com o nascimento e caem no nada após um curto período, passando a ser apenas um passado longínquo - um nada”.
Schopenhauer vê a essência humana como elemento indestrutível, porém, ela seria um fator oculto. Para ele tudo que nasce, é justo que pereça. E é uma ilusão pensar que o “eu” desaparece com a morte, enquanto o mundo permanece. Tal ilusão causa temores. Para Schopenhauer ocorre o oposto: o mundo desaparece, enquanto a substância íntima do “eu”, o criador-suporte desse sujeito, em cuja representação constituía toda existência do mundo, persiste. O cérebro e o intelecto cessam de existir, e com eles, o mundo objetivo. Assim, morrer é o momento de libertação de uma individualidade restrita e uniforme.
Os animais, diz Schopenhauer, estão em vantagens, pois permanecem livres das angústias e das preocupações provenientes da nossa imaginação. Os animais são o presente corporificado. Visivelmente tranquilos, causa-nos vergonha ao nosso estado aflito e insatisfeito em pensamentos e preocupações. O filósofo conclui que a nossa elevada capacidade cognitiva torna a vida um eterno sofrimento.                    

Luciano Menezes

sábado, 23 de março de 2019

O FALSO PRINCÍPIO DA NOSSA EDUCAÇÃO – MAX STIRNER

Stirner afirma que é preciso tomar a posse de si mesmo. Essa valorização da liberdade individual está também na obra “O único e sua propriedade”. Stirner entende que a única propriedade é o próprio sujeito. Stirner afirma que a escola não pode ser o túmulo da personalidade original. É o que ela tem sido em demasia.
O filósofo Von Hartmann vê em Nietzsche um plagiário de Stirner, enquanto Albert Lévy nega a influência de Stirner. Para Charles Andler, Nietzsche leu Stirner e o estima. Ambos seriam individualistas e não se pode confundir o “Super-homem” e o “Único”, embora possamos estabelecer um paralelo entre os dois autores.
Stirner é considerado, por alguns, um metafísico anarquista, por chegar a determinadas conclusões ontológicas e políticas. Ele reforça os valores da autoeducação e critica a filosofia hegeliana com a hegemonia e respeito pelo espírito que, para Stirner, perpetua a alienação religiosa. Descarta, também, o culto de Hegel ao Estado. Para Stirner, só é eterno o espírito que tem consciência em si, enquanto, para Hegel, o espírito é consciente apenas na medida em que tem consciência de si.
A obra também discorre sobre o Dandismo, o humanismo do século XVI, as concepções de Heine, a escola Saint-simoniana e as teorias de Saint-Simon que se opõem ao idealismo da filosofia alemã. Stirner enxerga o homem não como um consumidor, mas sim, como um produtor. Industrial, industrialismo representam para Stirner os termos antitéticos do Dandismo e do Dândi.
Jean Barrué diz que a educação concebida por Stirner está afastada dessa imagem estereotipada do mestre escola prussiano, propagada por gerações germanófabos. Questiona-se a educação alemã e o autoritarismo repressivo das escolas inglesas que sufocam a personalidade humana. Resultando num povo ignorante em relação aos senhores instruído. A cultura escolar especializada negligencia as culturas gerais. Assim, a preparação para a vida prática só forma espíritos respeitosos das leis e não espíritos livres.
Um sujeito que se conforma como membro útil da sociedade não experimenta a sua própria personalidade. Devemos, portanto, ser o próprio Eu e sair dos estábulos de submissões do Humanismo e do Realismo e da vida escolar que só engendra filisteus.
Luciano Menezes

quinta-feira, 21 de março de 2019



DO PRINCÍPIO DA AUTORIDADE – P.-J. PROUDHON
Para Proudhon, a autoridade está para o governo como o pensamento está para a palavra. Evidencia que a ideia governamental nasceu dos costumes da família e das experiências domésticas. Nessa concepção, o governo parecia tão natural à sociedade quanto à subordinação entre pais e filhos. Com efeito, o povo não tem voz constitutiva na Igreja e no Estado. Seu papel é crer e obedecer. Sublinha o parasitismo da minoria e as leis como teias de aranhas para os poderosos e cadeias de aço para os pobres.
Nota-se, portanto, o destaque dado à fé, a devoção e a subordinação ao poder. E o governo ao lado dos mais ricos e privilegiados. Assim, a história dos governos é um martírio do proletariado. Proudhon enfatiza a mentalidade ingênua que diz que os inimigos governantes são nossos empregados. E alerta: sublata causa, tollitur effectus – suprimida a causa, suprime-se o efeito!
Proudhon ressalata a massa de cegos voluntários e critica o trio Leibniz, Kant e Hegel e seus espíritos essencialmente governamentais, assim como Lutero. Destaca também a sua concepção de “Contrato Social” que difere do “Contrato Social” de Rousseau. Para Rousseau, o “Contrato Social” é a aliança ofensiva e defensiva daqueles que possuem contra aqueles que não possuem.
Proudhon classifica Rousseu como o charlatão – o sacerdote genebrês por apresentar como necessária a subalternização dos trabalhadores pela ditadura e pela inquisição a partir do título decepcionante de “Contrato Social” – código da tirania capitalista e mercantil. Então, o programa de Rousseau e o seu Tratado de Educação são demagogos e mentirosos. Em resumo, Proudhon refuta toda autoridade presuntiva e toda solução indireta.
Luciano Menezes



AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO – Jean-Pierre Vernant
Vernant descreve aspectos do pensamento mítico e algumas cosmologias tardias. Explica a ambiguidade dos termos “Phyen” e “Génesis” – engendrar e produzir, nascimento e origem. O autor destaca as soberanias, as ordenações do espaço, a arquitetura do Mito Cosmogônico, as regulações dos ciclos das estações. Salienta também alguns ritos e mitos da cosmologia babilônica.
Afirma que a astronomia grega se inspira na ciência babilônica – cosmologia. Os Jônios teriam situado a ordem do cosmos, as posições, as dimensões, as distâncias e os movimentos dos astros, com esquemas geométricos. Num pínax, desenharam a terra inteira e o mundo habitado com seus mares e rios, constituindo modelos mecânicos do universo parecidos com o modelo de Anaximandro.
A geometria do universo físico transforma a perspectiva cosmológica e consagra uma nova forma de pensamento que explicará e analisará os Mitos. O autor mostra as correspondências entre o pensamento geométrico e o pensamento político e os vínculos entre o cosmo natural e o cosmo social.
Segundo Vernant, as Teogonias e as Cosmogonias gregas, como as cosmologias que lhes sucederam, comportam relatos de gêneses que expõem emergências progressivas de um mundo ordenado. O autor abrilhanta as narrativas hesiódicas, em especial, o Hino a Glória de Zeus. Comenta o poema babilônico da criação, o Emuna Elis, cantado anualmente, no quarto dia festivo do mês de Nisan, na Babilônia.
Em alguns casos, a função do Mito é a de estabelecer uma distinção entre o ponto de vista temporal e o princípio de poder. Ou seja, entre o princípio cronológico na origem do mundo e o princípio que preside à sua ordenação atual.
Luciano Menezes

terça-feira, 19 de março de 2019



A CULTURA NO PLURAL – Michel de Certeau

Certeau entende que a cultura no singular impõe sempre uma norma – “lei de poder”.  Ocorre uma força expandida que unifica, colonizando e negando, concomitantemente, seu limite. A cultura no plural exige uma luta incessante. Existe uma relação de cada produção cultural com a morte que a limita e com a luta que a defende.
Para Certeau, as análises associadas às culturas ladeiam uma imensidão silenciosa, caminham sobre as praias do inacessível e descobrem sua relação com uma morte. Outro aspecto importante é o “o paradoxal dos meios de comunicação de massa”, que produz uma divisão entre aquilo que se diz, mas não é real, e aquilo que é vivenciado, mas não pode ser dito. A linguagem torna-se uma ficção com relação à realidade cotidiana que deixa de ter uma linguagem.
As enfermidades e as tensões são manifestadas no campo indefinido das culturas. É um campo de luta multiforme entre o flexível e rígido. Segundo Certeau, os produtos culturais servem as classes daqueles que criam e são pagos pela massa dos que praticamente deles não usufruem. Na França, os trustes poderosos definem qualquer “bem cultural” que seja vendável; colocam exigências em seus produtos que não são mais a do público em geral.
Assim, o homem é falado pela linguagem de determinismos socioeconômicos muito antes que ele fale. Afirma que os países colonizadores foram sempre verdadeiros negadores de culturas. O sistema elimina e rouba as tradições. Estabelece, portanto, um sistema cultural imposto do alto que marginaliza e elimina os sujeitos.
    Luciano Menezes