domingo, 24 de março de 2019


DA MORTE. METAFÍSICA DO AMOR. DO SOFRIMENTO DO MUNDO – SCHOPENHAUER
Schopenhauer afirma que os homens se assemelham a relógios a que se dá corda e eles trabalham sem saber a razão. A cada homem que vem ao mundo, o “relógio” da vida humana recebe corda novamente – “repete-se mais uma vez o velho estribilho da eterna caixa de música”. Vemos sofrimentos e lutas íntimas intermináveis para todos os lados em um mundo que se dissipa eternamente.
Segundo Schopenhauer, o temor da morte é o reverso da vida, comum ao nosso ser. Em cada animal, junto com o cuidado inato com a conservação está, também, o medo de inato da aniquilação. Todavia o apego à vida parece insensato após um exame ponderado. Observa-se que o “não ser” depois da morte não é diferente daquele “não existir” anterior ao nascimento. Então, toda infinidade de um tempo fluiu quando não erámos, mas isso não nos aflige. Um tempo infinito ecoou antes de nascermos. Para Plutarco, antes do nascimento e depois da morte não somos nada.
Afirma-se que a esperança da imortalidade da alma vem sempre ligada a de um mundo melhor. Isso mostra que o mundo presente não vale muita coisa. O filósofo diz que a doce satisfação nos semblantes dos mortos é o alívio singular à força motriz que o dirige. Cessam-se por completo as funções vitais e a morte surge como uma amiga daqueles que sofrem doenças incuráveis ou desgostos inconsoláveis. É o término de uma existência rica em sofrimentos e pobre em felicidades.
Aqui, o sono e a morte não tem diferença; e o medo da morte é uma superstição. O nascimento e a morte se seguem rápido e sucessivamente. Todas as existências estão destinadas ao aniquilamento. Ressalta-se a sentença atribuída a Hermes Trismegisto: “seres surgem do nada com o nascimento e caem no nada após um curto período, passando a ser apenas um passado longínquo - um nada”.
Schopenhauer vê a essência humana como elemento indestrutível, porém, ela seria um fator oculto. Para ele tudo que nasce, é justo que pereça. E é uma ilusão pensar que o “eu” desaparece com a morte, enquanto o mundo permanece. Tal ilusão causa temores. Para Schopenhauer ocorre o oposto: o mundo desaparece, enquanto a substância íntima do “eu”, o criador-suporte desse sujeito, em cuja representação constituía toda existência do mundo, persiste. O cérebro e o intelecto cessam de existir, e com eles, o mundo objetivo. Assim, morrer é o momento de libertação de uma individualidade restrita e uniforme.
Os animais, diz Schopenhauer, estão em vantagens, pois permanecem livres das angústias e das preocupações provenientes da nossa imaginação. Os animais são o presente corporificado. Visivelmente tranquilos, causa-nos vergonha ao nosso estado aflito e insatisfeito em pensamentos e preocupações. O filósofo conclui que a nossa elevada capacidade cognitiva torna a vida um eterno sofrimento.                    

Luciano Menezes

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