DA MORTE. METAFÍSICA DO AMOR. DO SOFRIMENTO DO MUNDO
– SCHOPENHAUER
Schopenhauer
afirma que os homens se assemelham a relógios a que se dá corda e eles
trabalham sem saber a razão. A cada homem que vem ao mundo, o “relógio” da vida
humana recebe corda novamente – “repete-se mais uma vez o velho estribilho da
eterna caixa de música”. Vemos sofrimentos e lutas íntimas intermináveis para
todos os lados em um mundo que se dissipa eternamente.
Segundo
Schopenhauer, o temor da morte é o reverso da vida, comum ao nosso ser. Em cada
animal, junto com o cuidado inato com a conservação está, também, o medo de
inato da aniquilação. Todavia o apego à vida parece insensato após um exame
ponderado. Observa-se que o “não ser” depois da morte não é diferente daquele “não
existir” anterior ao nascimento. Então, toda infinidade de um tempo fluiu
quando não erámos, mas isso não nos aflige. Um tempo infinito ecoou antes de
nascermos. Para Plutarco, antes do nascimento e depois da morte não somos nada.
Afirma-se que a esperança
da imortalidade da alma vem sempre ligada a de um mundo melhor. Isso mostra que
o mundo presente não vale muita coisa. O filósofo diz que a doce satisfação nos
semblantes dos mortos é o alívio singular à força motriz que o dirige. Cessam-se
por completo as funções vitais e a morte surge como uma amiga daqueles que
sofrem doenças incuráveis ou desgostos inconsoláveis. É o término de uma
existência rica em sofrimentos e pobre em felicidades.
Aqui, o sono e a
morte não tem diferença; e o medo da morte é uma superstição. O nascimento e a
morte se seguem rápido e sucessivamente. Todas as existências estão destinadas
ao aniquilamento. Ressalta-se a sentença atribuída a Hermes Trismegisto: “seres
surgem do nada com o nascimento e caem no nada após um curto período, passando
a ser apenas um passado longínquo - um nada”.
Schopenhauer vê
a essência humana como elemento indestrutível, porém, ela seria um fator oculto.
Para ele tudo que nasce, é justo que pereça. E é uma ilusão pensar que o “eu”
desaparece com a morte, enquanto o mundo permanece. Tal ilusão causa temores. Para
Schopenhauer ocorre o oposto: o mundo desaparece, enquanto a substância íntima
do “eu”, o criador-suporte desse sujeito, em cuja representação constituía toda
existência do mundo, persiste. O cérebro e o intelecto cessam de existir, e com
eles, o mundo objetivo. Assim, morrer é o momento de libertação de uma individualidade
restrita e uniforme.
Os animais, diz
Schopenhauer, estão em vantagens, pois permanecem livres das angústias e das
preocupações provenientes da nossa imaginação. Os animais são o presente
corporificado. Visivelmente tranquilos, causa-nos vergonha ao nosso estado
aflito e insatisfeito em pensamentos e preocupações. O filósofo conclui que a
nossa elevada capacidade cognitiva torna a vida um eterno sofrimento.
Luciano Menezes

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