Luciano Silva de Menezes
domingo, 2 de novembro de 2025
quarta-feira, 22 de abril de 2020
A BURGUESIA E O ABURGUESAMENTO ATROFIADO
A desvinculação
de algumas castas privilegiadas das atividades rurais do modelo feudal
coincidiu com uma ascensão do comércio citadino. O comércio passou a ser
desenvolvido em muitas cidades da Europa e possibilitaram as castas burguesas
se afastarem, gradativamente, da terra. Porém, a hereditariedade feudal deixou
seus resquícios nocivos: a divisão da terra em intocáveis propriedades agigantadas,
consideradas sagradas, deu início a uma série de injustiças e desigualdades.
Para
Azevedo, o termo “burguês” já era empregado na Europa, sobretudo, em textos
jurídicos, desde o século VIII. Referiam-se a comerciantes urbanos com certos
privilégios e direitos.
Por
volta do século VIII, muitos comerciantes mantinham seus privilégios morando
nos burgos – fortalezas vigiadas por guardas militarizados. A derivação do
termo “burgos”, segundo Azevedo, provém da palavra burgensis – praça armada. Nessa conjuntura dos burgos predominava
uma rígida hierarquia social.
Observamos
que para alguns historiadores, a consolidação da burguesia ocorrerá no século
XI. E essa burguesia europeia era composta, essencialmente, de comerciantes,
artesões e mascates. Todavia, o ápice da burguesia só iria ocorrer no século
XIX. E as bases constitutivas desse apogeu era o aumento das rendas e dos
empregados a serviço dos interesses burgueses.
Assim,
intensifica-se a “maior relevância” gerada na Idade Média, e que foi ressaltada
por Le Goff, a sperare – a esperança
como expectativa econômica por excessivos lucros “lícitos” e “ilícitos”. Então,
o turpe lucrum – lucro vergonhoso, na
mentalidade medieva, deixava de ser um constrangimento no seio da burguesia. E,
além disso, o domínio político e econômico também representou, muitas vezes,
uma decadência moral. Não podemos ignorar que esse aviltamento moral também foi
assegurado pela "fabricação" de súditos, de escravos e de
assalariados, a cada época.
Essa
alta ênfase da burguesia parecia, sobretudo, para ela própria, significar o
surgimento de uma “nova nobreza”. Talvez, isso tenha motivado proprietários
burgueses a buscarem, a todo custo, imitações comportamentais de hábitos da
alta nobreza. Por outro lado, funções, costumes e hábitos utilizados no passado
foram sendo desprezados e classificados como vergonhosos. Procurava-se manter
laços com a ordem burguesa, concomitantemente, recém-nascida e reformulada.
Também foi necessário reformular as tradições religiosas-morais e impregná-las
no consenso – na “opinião pública” e, de certa forma, no senso comum.
Muitos trabalhadores rudes,
intelectuais, administrativos e burocráticos que viviam nas proximidades do
cotidiano da burguesia passaram a ter uma devoção ao estilo de vida burguês.
Formulando uma espécie de “aburguesamento”, por idiossincrasias: modo de ver,
de pensar, de agir, mesmo não sendo eles burgueses. Tais tendências burguesas
se transformaram em convicções dogmatizadas no imaginário e nas mentalidades das classes trabalhadoras e,
sobretudo, de assalariados.
Veio
à tona os anseios e vaidades burguesas enviesadas pelas ideias aburguesadas. Multiplicaram-se
as “necessidades” desnecessárias provenientes da era moderna. Muito se
ultrapassou o conjunto das necessidades com a modernização da indústria e das
tecnologias hodiernas. Assim, perdeu-se a noção entre o que é verdadeiramente
necessário e relevante para cada um.
Com o passar do tempo, o
individualismo egoísta ampliado pelo processo de aburguesamento e pelo universo
capitalista, reformulou o slogan “vencer na vida”. Ocorreu também uma
infinidade de transformações sociais, políticas, econômicas e culturais que
ajudaram a fortalecer o bordão que visava uma “vitória”. Sobre esse momento,
Élisée Reclus destacou uma “tirania material” dos senhores das castas burguesas
que tardaram e prejudicaram o desenvolvimento da arte. Nessa tirania estaria o
gosto pela tolice, pela infantilidade - o vazio total do espírito. E conclui,
portanto, que foi o bem-estar privado e privilegiado e tantas outras
explorações que geriram as sociedades burguesas.
No
transcurso do tempo muitos países se tornaram imitadores de hábitos e costumes
burgueses oriundos da Europa. Porém, entendo que o processo de aburguesamento
das camadas de trabalhadores é uma espécie de “mimetismo”. São formas de
imitações, acomodações e adaptações, na maioria das vezes, atrofiadas, dos comportamentos
da burguesia. Atrofiadas, enfraquecidas, incompletas, definhadas são sinônimos
que talvez possamos usar para descrever, provisoriamente, o processo parcial de
aburguesamento de muitos trabalhadores que buscam imitar uma classe fundada
sobre os privilégios políticos, econômicos históricos.
Luciano
Menezes
REFERÊNCIAS
AZEVEDO,
A. C. A. Dicionário de nomes, termos e conceitos históricos. 3ª ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
LE
GOFF, J. A Bolsa e a Vida: economia e religião na Idade Média. Rio de Janeiro:
civilização, 2007.
RECLUS,
E. O Homem e a Terra: textos escolhidos. São Paulo: Intermezzo, 2015.
quinta-feira, 4 de abril de 2019
MÚSICA
E SIMBOLISMO: Ressonâncias Cósmicas dos Instrumentos e das Obras – Roger J. V.
Cotte.
Cotte afirma que as
notas musicais eram conhecidas por suas funções e não pelos nomes usuais. As
setes consonâncias eram reconhecidas em correspondência com os sete planetas. A
Oitava: a Lua ou Selene; Sexta Maior: Mercúrio ou Hermes; Sexta Menor: Vênus ou
Afrodite; Quinta: O Sol ou Hélio; Quarta: Marte ou Ares; Terça Maior: Júpiter
ou Zeus; Terça Menor: Saturno ou Cromo.
O simbolismo
quaternário ou quinário traz os elementos: Fogo - Harpa ou Oboé; Terra – Viola;
Princípio Transcendente – Pássaro ou Harpa; Ar – Tambor, órgão ou mandora; e
Água – Alaúde ou Cornamusa. No simbolismo Setenário, temos: a Lua – Ré;
Mercúrio – Dó; Vênus – Si Bemol; Sol – Lá; Marte – Sol; Júpter – Fá e Saturno –
Mi.
Cotte menciona que a
Mitologia sobrecarregou determinados instrumentos de uma significação
reencontrada de século em século, até o presente. Cotte destacará, também, os
materiais constitutivos de diversos instrumentos, os agrupamentos iconográficos
dos instrumentos musicais, a músicas das cores, os aspectos planetários e suas
relações pitagóricas com os intervalos musicais. No término da obra há um
pequeno dicionário simbólico dos instrumentos musicais.
Luciano
Menezes
segunda-feira, 1 de abril de 2019
A
INTERPRETAÇÃO DAS CULTURAS – Clifford Geertz
Geertz foi o antropólogo
que exerceu muitas influências nos historiadores culturais. A sua teoria interpretativa
das culturas ressalta, sobretudo, o que ele chama de “descrição densa”. Compreender
as culturas de um povo expõe as suas normalidades e não reduz as
particularidades. A análise cultural, para ele, é ou deveria ser as avaliações
das melhores conjeturas com um traçar de conclusões explanatórias e não a
descoberta dos significados com o mapeamento de sua paisagem incorpórea.
Segundo Geertz, em
etnografia, a teoria deve oferecer vocabulários que expressam os atos
simbólicos e o que eles falam algo sobre eles. – o papel das culturas na vida humana. O
objetivo é tirar conclusões a partir de pequenos fatos densamente entrelaçados.
As formas das sociedades são, nesse caso, as substâncias das culturas. Geertz
afirma que se um estudo científico da cultura se arrasta e se atola num mero
descritivismo é porque o tema de seu assunto é enganoso e esquivo em grande
parte.
Geertz destaca as
culturas balinesas com as interpretações das brigas de galos – “um drama
filosófico” que elucida o entendimento das culturas em Bali. Ele enfatiza o
culto aos mortos prestados pelos mais novos, os títulos de honra proveniente
dos deuses, o feriado Njepi – o estranho dia do silencio, celebrado de acordo
com o calendário lunar, no ano novo balinês, o medo dos demônios e outros
fenômenos. Geertz entende que as sociedades e as vidas contêm suas próprias
interpretações e é preciso descobrir como acessá-las.
Luciano
Menezes
quarta-feira, 27 de março de 2019
O
QUEIJO E OS VERMES – Carlo Ginzburg
O moleiro Domenico Scandella
- Menocchio é um homem pobre que tinha diante de si as autoridades: o seu
vigário e o inquisidor de Aquileia, o magistrado de Portogruaro. Ginzburg fala
na hierárquica opressão eclesiástica diante do moleiro Menocchio que teve um
fim diferente do moleiro Pellegrino Baroni, conhecido como Pighino – o Gordo,
processo em 1570 pelo Santo Ofício de Ferrara.
Os registros da
inquisição do século XVI, na Itália mostram o interrogatório de Menocchio,
suspeito de heresia. Segundo Peter Burker, Menocchio responde as perguntas de
forma detalhada e expõem sua visão de cosmos. Constrói sua cosmologia. Na visão,
no princípio era o caos, e os elementos formaram uma massa semelhante ao
queijo, e da massa aparece os vermes, que seriam os anjos. No tribunal, Menocchio
mencionou os livros que havia lido e como os interpretava.
“O queijo e os vermes”
é considerada uma história “vinda de baixo” – das classes operárias. Ginzburb
entende que Menocchio se comporta de modo diferenciado diante do tribunal. É
violento no ataque às autoridades e afirma que na lei, o papal, os cardeais, os
padres são tão ricos e que tudo pertence à Igreja e aos padres. “Eles arruínam os
pobres”. E continua: “mas, em nome de quê? O papa é homem, com a diferença de
que tem poder. E poder fazer!”.
Ribeiro diz que o
moleiro Menocchio é um herói, um mártir da palavra que no final do século XVI,
lê muito. Um homem relativamente simples, mas que lê, reflete e pensa. Sofreu
por suas ideias, isolado, preso e condenado à morte. O papa Clemente VIII
exigiu a morte de Menocchio no mês em que estava concluindo o processo contra o
ex-frade Giordano Bruno. Resistir à pressão tão imensa, diz Ginzburg, era
impossível, em pouco tempo Menocchio seria executado. E o autor conclui: “sabemos
muito sobre Menocchio, porém, não sabemos nada De Marcato ou Marco, e tantos
outros como ele, viveram e morreram sem deixar rastros”.
Luciano Menezes
terça-feira, 26 de março de 2019
O
QUE É HISTÓRIA CULTURAL? – PETER BURKER
Para Peter Burke, os
medievalistas Le Goff e Jean-Claude Schmitt deram importantes subsídios para a
História Cultural popular. Nas décadas de 1980 e 1990 ficaram visíveis os
interesses pelos estudos culturais. Esse aumento do interesse pela cultura
popular teria tornado a Antropologia ainda mais relevante para os historiadores.
O autor sublinha a ascensão do novo gênero – “a micro-história”, na década de
970, que diz respeito ao grupo de historiadores italianos: Edoardo Grendi,
Giovanni Levi e Carlo Ginzburg.
Burke afirma que “micro-história”
foi incialmente a reação contra o estilo de História Social que seguia o modelo
de História Econômica que empregava métodos quantitativos e descritivos, e não
davam importância à variedade de culturas locais. As obras “Montaillou” de
Emmanuel Le Roy Ladurie, de 1975 e “O queijo e os Vermes”, de 1976 obtiveram
êxitos e sucesso. “Montaillou” foi à contribuição à História Cultural com
cultura material e mentalidades. “O Queijo e os Vermes” foi baseado em
registros da inquisição em Friuli, no século XVI. Interroga-se o moleiro
Domênico Scandella – Menocchio.
Burke destaca a figura
de Michel de Certeau. As semelhanças entre as suas ideias e as de Foucault e as
de seus contemporâneos, sobretudo, Bourdieu, com quem dialogou. Certeau
inverteu Foucault e substituiu o seu conceito de disciplina pelo o de
“antidisciplina”. A ideia de “prática”
de de Certeau, tem muito em comum com a de Bourdieu, porém, ele criticou a
noção de “habitus” que envolveria a ideia de que as pessoas comuns não têm
consciência do que fazem.
Para Burke, se de
Certeau e Foucault estão corretos acerca da importância da construção cultural,
então toda história é História Cultural. Uma sugestão é que os historiadores
precisam explorar os limites da plasticidade cultural. Segundo Burke, a
História Cultural sugere uma ênfase em mentalidades e sentimentos e não em
ideias e sistemas de pensamento. E, assim, ressalta que os problemas diferentes
exigem métodos diferentes, ou seja, o exame do tema por meio de um único método
acaba empobrecendo a História Cultural.
Luciano Menezes
domingo, 24 de março de 2019
DA MORTE. METAFÍSICA DO AMOR. DO SOFRIMENTO DO MUNDO
– SCHOPENHAUER
Schopenhauer
afirma que os homens se assemelham a relógios a que se dá corda e eles
trabalham sem saber a razão. A cada homem que vem ao mundo, o “relógio” da vida
humana recebe corda novamente – “repete-se mais uma vez o velho estribilho da
eterna caixa de música”. Vemos sofrimentos e lutas íntimas intermináveis para
todos os lados em um mundo que se dissipa eternamente.
Segundo
Schopenhauer, o temor da morte é o reverso da vida, comum ao nosso ser. Em cada
animal, junto com o cuidado inato com a conservação está, também, o medo de
inato da aniquilação. Todavia o apego à vida parece insensato após um exame
ponderado. Observa-se que o “não ser” depois da morte não é diferente daquele “não
existir” anterior ao nascimento. Então, toda infinidade de um tempo fluiu
quando não erámos, mas isso não nos aflige. Um tempo infinito ecoou antes de
nascermos. Para Plutarco, antes do nascimento e depois da morte não somos nada.
Afirma-se que a esperança
da imortalidade da alma vem sempre ligada a de um mundo melhor. Isso mostra que
o mundo presente não vale muita coisa. O filósofo diz que a doce satisfação nos
semblantes dos mortos é o alívio singular à força motriz que o dirige. Cessam-se
por completo as funções vitais e a morte surge como uma amiga daqueles que
sofrem doenças incuráveis ou desgostos inconsoláveis. É o término de uma
existência rica em sofrimentos e pobre em felicidades.
Aqui, o sono e a
morte não tem diferença; e o medo da morte é uma superstição. O nascimento e a
morte se seguem rápido e sucessivamente. Todas as existências estão destinadas
ao aniquilamento. Ressalta-se a sentença atribuída a Hermes Trismegisto: “seres
surgem do nada com o nascimento e caem no nada após um curto período, passando
a ser apenas um passado longínquo - um nada”.
Schopenhauer vê
a essência humana como elemento indestrutível, porém, ela seria um fator oculto.
Para ele tudo que nasce, é justo que pereça. E é uma ilusão pensar que o “eu”
desaparece com a morte, enquanto o mundo permanece. Tal ilusão causa temores. Para
Schopenhauer ocorre o oposto: o mundo desaparece, enquanto a substância íntima
do “eu”, o criador-suporte desse sujeito, em cuja representação constituía toda
existência do mundo, persiste. O cérebro e o intelecto cessam de existir, e com
eles, o mundo objetivo. Assim, morrer é o momento de libertação de uma individualidade
restrita e uniforme.
Os animais, diz
Schopenhauer, estão em vantagens, pois permanecem livres das angústias e das
preocupações provenientes da nossa imaginação. Os animais são o presente
corporificado. Visivelmente tranquilos, causa-nos vergonha ao nosso estado
aflito e insatisfeito em pensamentos e preocupações. O filósofo conclui que a
nossa elevada capacidade cognitiva torna a vida um eterno sofrimento.
Luciano Menezes
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