A BURGUESIA E O ABURGUESAMENTO ATROFIADO
A desvinculação
de algumas castas privilegiadas das atividades rurais do modelo feudal
coincidiu com uma ascensão do comércio citadino. O comércio passou a ser
desenvolvido em muitas cidades da Europa e possibilitaram as castas burguesas
se afastarem, gradativamente, da terra. Porém, a hereditariedade feudal deixou
seus resquícios nocivos: a divisão da terra em intocáveis propriedades agigantadas,
consideradas sagradas, deu início a uma série de injustiças e desigualdades.
Para
Azevedo, o termo “burguês” já era empregado na Europa, sobretudo, em textos
jurídicos, desde o século VIII. Referiam-se a comerciantes urbanos com certos
privilégios e direitos.
Por
volta do século VIII, muitos comerciantes mantinham seus privilégios morando
nos burgos – fortalezas vigiadas por guardas militarizados. A derivação do
termo “burgos”, segundo Azevedo, provém da palavra burgensis – praça armada. Nessa conjuntura dos burgos predominava
uma rígida hierarquia social.
Observamos
que para alguns historiadores, a consolidação da burguesia ocorrerá no século
XI. E essa burguesia europeia era composta, essencialmente, de comerciantes,
artesões e mascates. Todavia, o ápice da burguesia só iria ocorrer no século
XIX. E as bases constitutivas desse apogeu era o aumento das rendas e dos
empregados a serviço dos interesses burgueses.
Assim,
intensifica-se a “maior relevância” gerada na Idade Média, e que foi ressaltada
por Le Goff, a sperare – a esperança
como expectativa econômica por excessivos lucros “lícitos” e “ilícitos”. Então,
o turpe lucrum – lucro vergonhoso, na
mentalidade medieva, deixava de ser um constrangimento no seio da burguesia. E,
além disso, o domínio político e econômico também representou, muitas vezes,
uma decadência moral. Não podemos ignorar que esse aviltamento moral também foi
assegurado pela "fabricação" de súditos, de escravos e de
assalariados, a cada época.
Essa
alta ênfase da burguesia parecia, sobretudo, para ela própria, significar o
surgimento de uma “nova nobreza”. Talvez, isso tenha motivado proprietários
burgueses a buscarem, a todo custo, imitações comportamentais de hábitos da
alta nobreza. Por outro lado, funções, costumes e hábitos utilizados no passado
foram sendo desprezados e classificados como vergonhosos. Procurava-se manter
laços com a ordem burguesa, concomitantemente, recém-nascida e reformulada.
Também foi necessário reformular as tradições religiosas-morais e impregná-las
no consenso – na “opinião pública” e, de certa forma, no senso comum.
Muitos trabalhadores rudes,
intelectuais, administrativos e burocráticos que viviam nas proximidades do
cotidiano da burguesia passaram a ter uma devoção ao estilo de vida burguês.
Formulando uma espécie de “aburguesamento”, por idiossincrasias: modo de ver,
de pensar, de agir, mesmo não sendo eles burgueses. Tais tendências burguesas
se transformaram em convicções dogmatizadas no imaginário e nas mentalidades das classes trabalhadoras e,
sobretudo, de assalariados.
Veio
à tona os anseios e vaidades burguesas enviesadas pelas ideias aburguesadas. Multiplicaram-se
as “necessidades” desnecessárias provenientes da era moderna. Muito se
ultrapassou o conjunto das necessidades com a modernização da indústria e das
tecnologias hodiernas. Assim, perdeu-se a noção entre o que é verdadeiramente
necessário e relevante para cada um.
Com o passar do tempo, o
individualismo egoísta ampliado pelo processo de aburguesamento e pelo universo
capitalista, reformulou o slogan “vencer na vida”. Ocorreu também uma
infinidade de transformações sociais, políticas, econômicas e culturais que
ajudaram a fortalecer o bordão que visava uma “vitória”. Sobre esse momento,
Élisée Reclus destacou uma “tirania material” dos senhores das castas burguesas
que tardaram e prejudicaram o desenvolvimento da arte. Nessa tirania estaria o
gosto pela tolice, pela infantilidade - o vazio total do espírito. E conclui,
portanto, que foi o bem-estar privado e privilegiado e tantas outras
explorações que geriram as sociedades burguesas.
No
transcurso do tempo muitos países se tornaram imitadores de hábitos e costumes
burgueses oriundos da Europa. Porém, entendo que o processo de aburguesamento
das camadas de trabalhadores é uma espécie de “mimetismo”. São formas de
imitações, acomodações e adaptações, na maioria das vezes, atrofiadas, dos comportamentos
da burguesia. Atrofiadas, enfraquecidas, incompletas, definhadas são sinônimos
que talvez possamos usar para descrever, provisoriamente, o processo parcial de
aburguesamento de muitos trabalhadores que buscam imitar uma classe fundada
sobre os privilégios políticos, econômicos históricos.
Luciano
Menezes
REFERÊNCIAS
AZEVEDO,
A. C. A. Dicionário de nomes, termos e conceitos históricos. 3ª ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
LE
GOFF, J. A Bolsa e a Vida: economia e religião na Idade Média. Rio de Janeiro:
civilização, 2007.
RECLUS,
E. O Homem e a Terra: textos escolhidos. São Paulo: Intermezzo, 2015.

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