sábado, 9 de fevereiro de 2019

O GRANDE MASSACRE DE GATOS – ROBERT DARNTON

       The Great Cat Massacre – “O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa” de Robert Darnton, e tradução de Sônia Coutinho, lançado em 2011.
Robert Darnton se debruça sobre o pensamento de homens simples: trabalhadores comuns, na França do século XVII. Ele procura penetrar num universo mental, e fazer uma exegese dos folclores inerentes aos camponeses. Destacando, portanto, suas culturas como componentes formuladores do modo de pensar. Assim, ele sublinha as transformações dos contos ao longo do tempo e espaço, nas tradições orais. Desse modo, a própria história das mentalidades exige métodos específicos, que diferem dos métodos usados para descrever fatos políticos.
Darnton entende o senso comum como uma elaboração social da realidade, que sofre variações de acordo com as culturas. Ele expressa a ordem comum de uma ordem social. A distância que nos separa do passado deve ser entendida, e ser o ponto de partida para as investigações. Descobrir e captar um sistema estranho para decifrá-lo.
As abordagens trazem as longas jornadas de trabalho, o convívio com o patrão, o trabalho transformado em mercadoria e a impossibilidade de crescimento.
Era preciso se livrar dos gatos e de suas feitiçarias. O sentido da feitiçaria e do “azar trazido” pelos gatos; a tortura dos animais, em especial, os gatos, era um divertimento popular, em toda a Europa, no início da era moderna.
Destaco, especialmente, o tratamento desrespeitoso que recebiam os escritos, que foram surrados, inclusive Voltaire. O comportamento dos filósofos era monitorado, porque mexer com os tabus eram coisa perigosa. Naquela ocasião, figuras como Diderot e D’Alembert desejavam enraizar o conhecimento na epistemologia, principiando com o ramo do conhecimento proveniente da memória. Rousseau teria ensinado os leitores rousseauistas a digerir os livros, e assim, atinge vidas em toda parte. Ele condenou os teatros, romances e toda literatura moderna.
Saliento a ideia da leitura e o compreender do mundo. Dar-se, na obra, um destaque para a importância da leitura nos ritos fúnebres – nos funerais balineses.
Em suma, Darnton menciona os registros imperfeitos dos contos de fadas como resquícios das tradições orais do Antigo Regime, e como ricas fontes para adentrarmos no universo do campo mental dos povos do passado.  
                                                    Luciano Menezes






Fotos: Luciano Menezes

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019






SERRA TALHADA: FISIONOMIA CITADINA

Serra Talhada - PE, cidade criada pelo despotismo ou nascida de forma espontânea?

Serra Talhada apresenta uma fisionomia citadina e bucólica. A partir de seu curso histórico constitutivo: Povoado, Vila e Cidade, notamos uma fisionomia múltipla, com uma "personalidade coletiva" e complexidades construídas e reformuladas por muitas gerações. Serra Talhada, é onde eu me sinto incitado por sentimentos de épocas passadas que provocam indolências, nostalgias, melancolias e alegrias. É possível ver, também, a força do capital moldar sua fisionomia e, concomitantemente, impossibilitar ou liquidar uma massa incalculável de sujeitos que sonham com uma vida melhor. Muitas vezes, nessa conjuntura, percebe-se uma espécie de dualismo do corpo social que deixa escancarado à riqueza e a miséria num mesmo cenário. Entendo, portanto, que precisamos visitar mais esse lugar e, se possível, estudar alguns fenômenos ocorridos no curso de sua existência histórica e de sua expansão física e populacional.

 


Luciano Menezes








domingo, 3 de fevereiro de 2019


O CALDEIRÃO DO ALEGRE

No “Caldeirão do Alegre”, destacamos forças de erosões, em especial, a erosão de riacho. Ou seja, os processos geológicos que desgastaram as rochas com a força das águas do riacho em períodos chuvosos. Tais forças foram, parcialmente, modelando-as e/ou reduzindo-as com o passar do tempo. As “intempéries” foram capazes de reconstituir novos cenários com auxílio dos sedimentos “alojados” e depositados, após cessarem as forças das águas do riacho “avivadas” pelas chuvas.
Entendo que as deslumbrantes imagens do “Caldeirão do Alegre” podem instigar muitos estudos, como por exemplo, a respeito da possibilidade de bioerosão – o crescimento de algumas espécies de plantas que contribuem para a erosão, mediantes, suas raízes infiltradas nas rochas; e também da erosão física, que torna algumas pedras mais esquivas e, em alguns casos, bem mais reduzidas. Embora, enfatizamos que a vegetação e as pedras são partes inseparáveis dessas paisagens expressivas da história.
As gravuras rupestres nos propõem muitas outras perguntas que vão além das pedras esculpidas por um riacho temporário. As águas esvaídas pelo clima seco realçam e revelam melhor tais tesouros arqueológicos. Isso lembra um pouco à famosa “Pedra da Fome”, na República Tcheca. Tal pedra revela mensagens ameaçadoras como, por exemplo: “Quando você me vê, chore!”. Outras perspectivas remetem as tradições nórdicas antigas de empilhar, propositalmente, grandes e pequenas pedras, como forma de demarcação de lugares, com intuito de não se perder; ou, mesmo, como formas de marcar uma espécie de saga sagrada que afirma: “eu estive por aqui”.
É importante lembrar que o sujeito que observa, hoje, o monumento rupestre, pertence a outro espaço e tempo históricos. Ele possui, provavelmente, outras ópticas e outra mentalidade que diferem muito das visões e da mentalidade do passado. Em face disso, o historiador Francisco José procura fazer observações da natureza astronômica desse monumento rupestre, observando, especialmente, os efeitos do equinócio solar no mesmo. 
                                                                 Luciano Menezes




sábado, 2 de fevereiro de 2019



A SOCIOLOGIA DE PROUDHON - Célestin Bouglé
La Sociologie de Proudhon. A obra foi traduzida por Plínio Augusto Coelho, e lançada pela  Intermezzo Editorial, EDUSP, 2015.
Bouglé salienta que a força coletiva servirá de centro à sociologia de Proudhon. Destaca, portanto, que Proudhon afirma os valores reais do indivíduo – da personalidade humana, insistindo na realidade do ser social. Ele irá se erguer contra a tradição teológica, sendo anticlerical e antirreligioso. Exercendo, essencialmente, reflexões críticas sobre as grandes propriedades, as grandes explorações e às forças invasoras da propriedade. Fará, também, uma excelente distinção entre o roubo violento e o roubo não violento.
Vale lembrar que Proudhon, segundo Bouglé, não se satisfaz com o socialismo de Saint - Simon e nem com o de Fourier. A propriedade é, para Proudhon, um direito de “aubaine” – (era o direito medievo que o senhor tinha de apoderar-se dos bens do estrangeiro não naturalizado após sua morte), - que significava, portanto, o poder de produzir sem trabalhar, fazendo do nada alguma coisa. É, portanto, necessário varrer da terra esse direito de “aubaine” e todos os seus resquícios de ambição suprema. Enfatiza-se, que o poder de compra da massa está reduzido à própria e simples subsistência.
Bouglé também sublinha que Proudhon denuncia todos os pecados da democracia de Rousseau e declara também o declínio do Estado teológico. Apontando todos os malefícios da fé. Destaca-se, também, uma crítica a Fourier, às suas categorias e a sua ideia de série – “a seita fourierista”.
Bouglé diz que Proudhon, em determinado momento, não crer mais na possiblidade de síntese, e crer sempre que as antíteses são necessárias. Em resumo, bastaria apenas uma observação nas constituições dos Estados modernos, para percebermos a febre belicosa e todos os efeitos das enfermidades orgânicas, dos feudalismos financeiros e econômicos e de uma decadência moral que chegou a um estado de pauperismo por meio de uma injustiça organizada.
                                                     

             Luciano Menezes





TRATADO DA REFORMA DO ENTENDIMENTO
Baruch Spinoza
“Tratado da Reforma do Entendimento” é uma tradução do Tractatus de Intellectus Emendatione, feita por C. Mioranza. Obra lançada pela editora Escala. Nessa obra, Spinoza analisa a mente e a decepcionante condição humana, permeada por dúvidas, falsidades, ficções adquiridas no curso de suas percepções. O filósofo, que passou a ser considerado um maldito pela comunidade judaica, foi, também, proibido de comercializar. Em 1678, as obras de Spinoza foram queimadas e por, praticamente, um século a sua obra ficou escondida, vindo à tona somente durante o Iluminismo. Schelling, Goeth, Hegel, Lessing irão dar a devida relevância a Spinoza.
Para Spinoza, a riqueza, a honra e o prazer são as três coisas que distraem o espírito, e devido a elas, os homens mal podem pensar em outro bem. O filósofo acredita que a certeza nada mais é do que a própria essência objetiva – o modo pelo qual sentimos a essência formal é a própria certeza. Assim, a verdadeira ideia, distingue das percepções. E é investigando a natureza das coisas que conhecemos o poder de compreender. Spinoza afirma que “de fato, para saber que sei, é necessário primeiramente que eu saiba, mas não é necessário para que saiba, saber que sei”.
Outro aspecto importante é a distinção entre o “sono” e a “vigília”.  Antes de constatar que o sonho é falso, acredita-se estar acordado, embora se esteja dormindo. Caímos nas percepções fictícias, falsas e duvidosas. Se você jamais refletiu sobre a ilusão dos sentidos, nunca duvidará se o Sol é menor ou maior do que aparenta. Então, o camponês se espanta, às vezes, em ouvir dizer que o Sol é muito maior do que a Terra. Os sentidos nos enganam. Nesse caso, a dúvida surge quando pensamos na ilusão dos sentidos. A dúvida surge, segundo ele, porque as coisas são investigadas sem ordem.
Spinoza sugere fazermos uma distinção entre a imaginação e a intelecção, para não julgarmos, equivocadamente, aquilo que mais facilmente imaginamos entender. Desse modo, antepomos o que deve ser posposto, subvertendo a ordem da progressão. Spinoza adverte que devemos ter cuidado para não misturar aquilo que existe somente no entendimento com aquilo que existe na coisa. Então, o objetivo é ter ideias claras e distintas, com aquelas provenientes da mente pura e não dos movimentos fortuitos do corpo.
Luciano Menezes