REFLEXÃO SOBRE AS METAS DO DIA A DIA
Luciano Silva de Menezes[1]
A
“dignidade” rotineira do trabalho recomenda uma meta a cada instante; com uma
fome insaciável constrói direta ou indiretamente: luxos, acúmulos de riqueza, autoritarismo
e, consequentemente, injustiças e desigualdades sociais. Quadro assegurado
principalmente pelas metas intermináveis.
Um
espírito misto de raposa e abutre está lá, presentes nas “buscas das metas,”
edificando grandes estruturas: enormidades que, de modo geral, Nietzsche afirmou
estarem cobertas de sangue e suor.
Mas,
como se calar diante das enganações das pessoas que são obrigadas a cumprir
metas, semelhante ao castigo das Danaides - encher tonéis furados? Como fechar
os olhos de modo indiferente em meio ao espetáculo das injustiças no âmbito
social das metas infindáveis?
Quão
grande é o número de explorados nas esferas comerciais, nas fábricas, nos
hospitais, escolas, nos consultórios e em outras tantas repartições. Nos “santuários
das metas,” o devoto homem se tornou um objeto, e nessa reificação o objetivo
principal é satisfazer os caprichos de uma ordem suprema, que às vezes aparece
tão próximo; muitas vezes na figura do gerente caprichoso. Que, quase sempre,
com um venda nos olhos prega uma fecundidade falsa para a imposição das metas.
Como
se não bastasse, a existência de lucros avarentos de várias formas, a invenção
das metas surgiria para castigar corpo e mente. Extraindo o suor e o sangue,
atingindo o corpo, e consequentemente, atormentando consciências, em especial,
dos chamados profissionais da miséria, ou seja, aqueles que ganham salários
ínfimos. Assim, esses marginalizados pela estrutura econômica permanecem
suprimidos em seus cumprimentos de metas, na dependência e supervisão daqueles
que se encontram anestesiados pela ambição dos lucros ou de seus subordinados –
assalariados de colarinho e gravata.
Uma
minoria beneficiada pelas metas, ostentando os resultados lucrativos está
sempre alheia aos tormentos dos suados cumpridores de metas, chegando somente a
se envergonhar do estado de miséria desses trabalhadores ou dos desempregados,
às vésperas da sua ceia natalina. Onde, inevitavelmente desperta o seu
sentimento de culpa, e então, tenta atenuar as dores reais desses homens, (aflições
que perpassam os anos). Doam hipocritamente presentes e cestas básicas como
forma de sentirem aliviados do fardo de culpa - o chamado verme da consciência
nietzschiano.
Nesse
panorama, a “legitimidade” de oprimir pelas metas obteve o seu triunfo, ou
seja, conseguiu fazer com que alguns trabalhadores não enxerguem problema algum
em tentar cumprir as metas e as suas regras. Diante disso, ocorre uma disposição
mental de uma maioria de trabalhadores e, nesse cenário, de lado permanecem
estáticos os miseráveis afogados nas metas, e do outro, os bens que brilham:
frutos do trabalho produtivo que geralmente sustenta o homem luxuoso e o seu
trabalho não produtivo.
Essa
realidade de obter riquezas com o suor alheio fez com que Sêneca desafiasse
qualquer homem a abrir as portas de sua casa, e convidasse todos da cidade para
verificar se encontrava algo que não era legitimamente seu. E, se porventura
permanecesse com os mesmos bens, esse seria um homem glorioso.
Concluo
que, encontrar esse homem glorioso continua sendo uma tarefa quase impossível,
diante da germinação social irrigada com o suor daqueles que não gozam de seu
trabalho de forma justa, mas que, continuam “batendo metas” para a ascensão
social e econômica de pequenos grupos.
O
desafio de Sêneca ainda é válido.
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