quarta-feira, 22 de abril de 2020



 A BURGUESIA E O ABURGUESAMENTO ATROFIADO

A desvinculação de algumas castas privilegiadas das atividades rurais do modelo feudal coincidiu com uma ascensão do comércio citadino. O comércio passou a ser desenvolvido em muitas cidades da Europa e possibilitaram as castas burguesas se afastarem, gradativamente, da terra. Porém, a hereditariedade feudal deixou seus resquícios nocivos: a divisão da terra em intocáveis propriedades agigantadas, consideradas sagradas, deu início a uma série de injustiças e desigualdades.
Para Azevedo, o termo “burguês” já era empregado na Europa, sobretudo, em textos jurídicos, desde o século VIII. Referiam-se a comerciantes urbanos com certos privilégios e direitos.
Por volta do século VIII, muitos comerciantes mantinham seus privilégios morando nos burgos – fortalezas vigiadas por guardas militarizados. A derivação do termo “burgos”, segundo Azevedo, provém da palavra burgensis – praça armada. Nessa conjuntura dos burgos predominava uma rígida hierarquia social.
Observamos que para alguns historiadores, a consolidação da burguesia ocorrerá no século XI. E essa burguesia europeia era composta, essencialmente, de comerciantes, artesões e mascates. Todavia, o ápice da burguesia só iria ocorrer no século XIX. E as bases constitutivas desse apogeu era o aumento das rendas e dos empregados a serviço dos interesses burgueses.
Assim, intensifica-se a “maior relevância” gerada na Idade Média, e que foi ressaltada por Le Goff, a sperare – a esperança como expectativa econômica por excessivos lucros “lícitos” e “ilícitos”. Então, o turpe lucrum – lucro vergonhoso, na mentalidade medieva, deixava de ser um constrangimento no seio da burguesia. E, além disso, o domínio político e econômico também representou, muitas vezes, uma decadência moral. Não podemos ignorar que esse aviltamento moral também foi assegurado pela "fabricação" de súditos, de escravos e de assalariados, a cada época.
Essa alta ênfase da burguesia parecia, sobretudo, para ela própria, significar o surgimento de uma “nova nobreza”. Talvez, isso tenha motivado proprietários burgueses a buscarem, a todo custo, imitações comportamentais de hábitos da alta nobreza. Por outro lado, funções, costumes e hábitos utilizados no passado foram sendo desprezados e classificados como vergonhosos. Procurava-se manter laços com a ordem burguesa, concomitantemente, recém-nascida e reformulada. Também foi necessário reformular as tradições religiosas-morais e impregná-las no consenso – na “opinião pública” e, de certa forma, no senso comum.
Muitos trabalhadores rudes, intelectuais, administrativos e burocráticos que viviam nas proximidades do cotidiano da burguesia passaram a ter uma devoção ao estilo de vida burguês. Formulando uma espécie de “aburguesamento”, por idiossincrasias: modo de ver, de pensar, de agir, mesmo não sendo eles burgueses. Tais tendências burguesas se transformaram em convicções dogmatizadas no imaginário e nas  mentalidades das classes trabalhadoras e, sobretudo, de assalariados.
Veio à tona os anseios e vaidades burguesas enviesadas pelas ideias aburguesadas. Multiplicaram-se as “necessidades” desnecessárias provenientes da era moderna. Muito se ultrapassou o conjunto das necessidades com a modernização da indústria e das tecnologias hodiernas. Assim, perdeu-se a noção entre o que é verdadeiramente necessário e relevante para cada um.
Com o passar do tempo, o individualismo egoísta ampliado pelo processo de aburguesamento e pelo universo capitalista, reformulou o slogan “vencer na vida”. Ocorreu também uma infinidade de transformações sociais, políticas, econômicas e culturais que ajudaram a fortalecer o bordão que visava uma “vitória”. Sobre esse momento, Élisée Reclus destacou uma “tirania material” dos senhores das castas burguesas que tardaram e prejudicaram o desenvolvimento da arte. Nessa tirania estaria o gosto pela tolice, pela infantilidade - o vazio total do espírito. E conclui, portanto, que foi o bem-estar privado e privilegiado e tantas outras explorações que geriram as sociedades burguesas.
No transcurso do tempo muitos países se tornaram imitadores de hábitos e costumes burgueses oriundos da Europa. Porém, entendo que o processo de aburguesamento das camadas de trabalhadores é uma espécie de “mimetismo”. São formas de imitações, acomodações e adaptações, na maioria das vezes, atrofiadas, dos comportamentos da burguesia. Atrofiadas, enfraquecidas, incompletas, definhadas são sinônimos que talvez possamos usar para descrever, provisoriamente, o processo parcial de aburguesamento de muitos trabalhadores que buscam imitar uma classe fundada sobre os privilégios políticos, econômicos históricos.                                            
Luciano Menezes 
REFERÊNCIAS
AZEVEDO, A. C. A. Dicionário de nomes, termos e conceitos históricos. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
LE GOFF, J. A Bolsa e a Vida: economia e religião na Idade Média. Rio de Janeiro: civilização, 2007.
RECLUS, E. O Homem e a Terra: textos escolhidos. São Paulo: Intermezzo, 2015.