EM RAZÃO DO MELHOR SALÁRIO
Luciano Silva de Menezes [1]
Pensar
a questão “salário” é discutir uma esquizofrenia social com dois quadros: o
baixo salário, pertinente a grande maioria; o da pobreza sumária. Diz respeito
às insuficiências econômicas em geral; do outro lado, a alta remuneração, de
uma restrita minoria, no ápice do pensamento econômico. No primeiro quadro, é funestamente permitido
morrer de fome ao lado dos grandes depósitos de alimentos, porém, sem perder a
alegria e a esperança; no segundo, é possível ser totalmente feliz a custa de
uma alta remuneração.
Diariamente
tem sido possível visualizar a cobiça e as buscas voltadas para os maiores
salários. Eles mobilizaram essa energia que rapidamente passou a emergir na
dialética do desespero social. O alto salário foi idealizado como elemento
indenizador de qualquer sofrimento humano. Com ele, qualquer vergonha de
essência escravista passou a ser considerada virtude sublime. A melhor renda
deveria ser capaz de aliviar ou dirimir qualquer resquício de angústia. Foi
descartada qualquer perspectiva do homem escravo do salário; do degredo das
formigas trabalhadoras, obedientes ao lema e aos deveres profissionais. Nesse
novo raciocínio econômico, o grande salário deveria suprir perfeitamente tudo e
pagar, muitas vezes, para o sujeito abdicar de ser ele mesmo e, passar a ser,
uma mera engrenagem, desde que seja em nome da estabilidade salarial.
Qualquer
desobediência parece ser incompatível com as receitas que buscam a “solução
salvífica” do melhor salário. Mas sim, a conduta gregária, o instinto de uma
multidão, quase sempre emotiva ou na subserviência impessoal – todos na busca
pelo melhor salário, não importa que atividade seja realizada, custe o que
custar.
A
vocação da mula, antes presente apenas no mundo dos trabalhos forçados e mais
árduos, perpassou em razão dos grandes salários, para os trabalhos mais
minuciosos. A ideia da nobreza pelo elevado Stipendium
Laboris – Remuneração do Trabalho ganhou força, na medida em que, os
trabalhadores não tinham a menor condição de comprar o que eles mesmos
produziam, mesmo sendo produções em excesso. Ficavam, porém, dualizados entre a
ilusão abstrata do direito ao trabalho e a realidade concreta do direito a
fome, ou seja, uma nova face da escravidão era desenhada de maneira
dissimulada.
Categoricamente
foram estabelecidas etiquetas de honras aos homens dependentes dos altos
salários, em contrapartida, foram dados carimbos determinantes de exclusões,
direta e indiretamente, aos sujeitos escravizados aos baixos salários. Nessa
lógica dos opostos, pregou-se uma panaceia da “boa vida”, e a receita para se “chegar
lá,” também foi dada por Bauman, quando diz que é necessário usar o shopping
como dieta culinária e o consumo de mercadorias como principal ingrediente.
Assim, o melhor salário passou a ser a grande quimera e o preço devidamente pago
para se acatar docilmente qualquer situação de vida, mesmo sendo ela num
cativeiro.
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