quinta-feira, 27 de agosto de 2015


TEXTO PARA OS CEGOS: SINTOMAS DE ALIENAÇÕES
                                                                Luciano Silva de Menezes [1]
As mentalidades infantis estão em toda parte e os sofrimentos apenas se expandiram também em virtude das crenças cegas. Chegamos ao grau irreversível das cegueiras: miopias sociais e políticas; cegueiras históricas, filosóficas, ideológicas e religiosas. Quando não somos enganados pelos argumentos mais hábeis, somos fisgados pelas ilusões das “razões” mais simples e vulgares.
Os cegos jamais conseguiram enxergar quem determinou os desprezos aos desprezados. Na irreflexão hereditária, o cego exaltou a grandeza da região, do país mais rico e mais poderoso, desde a exaltação da Europa até as adorações ao modelo EUA de ser. Assim, as cegueiras não exerceram nenhum olhar com densidade histórica, nenhuma análise das gêneses, logo, esse distúrbio visual ocultou silenciosamente a santíssima trindade do comportamento social moderno: rapinam (rapina), furtum (roubo) e usuram (usura). O fato é que, as sociedades modernas sempre foram sustentadas na atmosfera dos roubos, polarizados entre os odiosos – roubos das classes pobres e, do outro lado, os roubos amáveis – roubos e corrupções legítimas, sob as benções das leis e dos cegos. O roubo legítimo inicia-se, como dizia Rousseau, no primeiro cercamento de terra e na crença ingênua do cego, que acreditou que tal terra tinha um dono e não era um bem coletivo. Assim, a miséria mental do cego, juntou-se a miséria material e ele não pode mais se livrar do triste axioma: dois mais dois é quatro.
Atualmente, o cego, ingenuamente repete os jargões: corrupções, crise, desemprego, em desgastes conceituais. As cegueiras adoram as “verdades” das estatísticas, dados e números dos economistas. O senso comum se alimenta cegamente dos números como um caráter de santa verdade, já dizia o historiador Vilas Boas.
O cego, contraditoriamente, enxerga bem as fachadas enganosas e nutre uma esperança na transformação social, mediante o trabalho duro. Com espíritos e ouvidos cativos, o cego acreditou na preguiça do brasileiro, fabricada por uma voz que associou essa “preguiça” a miséria crônica.
O cego é também um consumidor compulsivo dos produtos, das opiniões, das quimeras e fantasias alheias, conformado com as “normalidades” e as aparências, seguindo a lógica do capital, a lógica da economia, a lógica teológica. A crença do cego é imediata, quer seja em relação à ciência, a medicina, a teologia – religião. Sua fé é prática, adquirida na primeira experiência vivenciada, aceitando tudo com evidente e jamais consegue questionar nada. Desse modo, o cego sempre foi uma eterna vítima das suas crenças, não conseguindo ampliar o limitado quadro de visão e, dificilmente atinge a superação do óbvio.
“O conhecimento científico que é colocado como verdade absoluta se sustenta até que outra verdade venha a substituí-lo.” (Thomas Kuhn).





[1] Historiador

segunda-feira, 17 de agosto de 2015


MÚSICAS PARA OS SURDOS: UM GRANDE NEGÓCIO
                                                                     Luciano Silva de Menezes [1]
Nunca houve um momento histórico tão rentável economicamente para os músicos e, sobretudo, para os empresários que lidam com a música lixo – mercadoria. Esse produto descartável, redondamente igual, em vários sentidos, conseguiu levantar um número incalculável de milionários, artistas artificiais em meio a uma arte tão medíocre, pobre e decadente.
Floresceu o trágico, numa decadência sistemática dos gostos em relação à música. Em meio aos ouvidos desfalecidos, reinou uma espécie de “reino dos ruídos.” Poluição sonora, com modelos idênticos, padronizados e temporários de “grandes artistas”.
Educados e adestrados, tomamos como parâmetro musical, a música do “rei” construído pela TV globo. Na impertinência do repetitivo e sagrado “especial fim de ano”. Fomos também mergulhados compulsoriamente na ideia que dava supremacia legítima a alguns “gênios” incontestáveis da música: Caetano, Chico e Gil. Todavia, o quadro ficaria ainda mais grave, pois a quantidade chegou a destruir totalmente qualquer qualidade que se delineasse. Evaporou - se, talvez, pouco depois do momento em que Andrés Segovia afirmou que os Beatles faziam barulho e chamava o resultado final de música.
O fato é que, atualmente, alguns sugerem a necessidade de “faxinas” nos ouvidos entorpecidos, ou mesmo, “implantar ouvidos” nos homens que não possuem. Desencadear uma educação musical, que vá de encontro aos trajes grosseiros apresentados como perfeição musical. Configurando assim, dependências absolutas dos ruídos rústicos, impostos e comercializados, principalmente, pelos mercados musicais: rádio e televisão e grandes eventos.
A repetição exaustiva do lixo sonoro traz uma sustentabilidade e perpetuação, de maneira mais forte que a simples adesão insensível do povo – cegas obediências à moda musical. Essa modalidade de música coisificada, banal e efêmera foi associada ao lazer, usada como pano de fundo, para os homens incapazes de ouvir. Então, chegamos ao grau insuportável da poesia musical que articula rimas horripilantes na mesma classe gramatical. Assim, em resumo, esse mundo, é o que Theodor Adorno chamou de mundo musical inferior, onde os excluídos da música séria, limita-se a se alimentar do que lhe é dado de cima, causando então, o nosso cenário musical da atualidade.
“Quando o sol da cultura se põe, até mesmo os anões lançam grandes sombras.” (Karl Kraus).





[1] Historiador

sexta-feira, 7 de agosto de 2015


EM RAZÃO DO MELHOR SALÁRIO                                                                   
                                                                    Luciano Silva de Menezes [1]
Pensar a questão “salário” é discutir uma esquizofrenia social com dois quadros: o baixo salário, pertinente a grande maioria; o da pobreza sumária. Diz respeito às insuficiências econômicas em geral; do outro lado, a alta remuneração, de uma restrita minoria, no ápice do pensamento econômico.  No primeiro quadro, é funestamente permitido morrer de fome ao lado dos grandes depósitos de alimentos, porém, sem perder a alegria e a esperança; no segundo, é possível ser totalmente feliz a custa de uma alta remuneração.
Diariamente tem sido possível visualizar a cobiça e as buscas voltadas para os maiores salários. Eles mobilizaram essa energia que rapidamente passou a emergir na dialética do desespero social. O alto salário foi idealizado como elemento indenizador de qualquer sofrimento humano. Com ele, qualquer vergonha de essência escravista passou a ser considerada virtude sublime. A melhor renda deveria ser capaz de aliviar ou dirimir qualquer resquício de angústia. Foi descartada qualquer perspectiva do homem escravo do salário; do degredo das formigas trabalhadoras, obedientes ao lema e aos deveres profissionais. Nesse novo raciocínio econômico, o grande salário deveria suprir perfeitamente tudo e pagar, muitas vezes, para o sujeito abdicar de ser ele mesmo e, passar a ser, uma mera engrenagem, desde que seja em nome da estabilidade salarial.
Qualquer desobediência parece ser incompatível com as receitas que buscam a “solução salvífica” do melhor salário. Mas sim, a conduta gregária, o instinto de uma multidão, quase sempre emotiva ou na subserviência impessoal – todos na busca pelo melhor salário, não importa que atividade seja realizada, custe o que custar.
A vocação da mula, antes presente apenas no mundo dos trabalhos forçados e mais árduos, perpassou em razão dos grandes salários, para os trabalhos mais minuciosos. A ideia da nobreza pelo elevado Stipendium Laboris – Remuneração do Trabalho ganhou força, na medida em que, os trabalhadores não tinham a menor condição de comprar o que eles mesmos produziam, mesmo sendo produções em excesso. Ficavam, porém, dualizados entre a ilusão abstrata do direito ao trabalho e a realidade concreta do direito a fome, ou seja, uma nova face da escravidão era desenhada de maneira dissimulada.  
Categoricamente foram estabelecidas etiquetas de honras aos homens dependentes dos altos salários, em contrapartida, foram dados carimbos determinantes de exclusões, direta e indiretamente, aos sujeitos escravizados aos baixos salários. Nessa lógica dos opostos, pregou-se uma panaceia da “boa vida”, e a receita para se “chegar lá,” também foi dada por Bauman, quando diz que é necessário usar o shopping como dieta culinária e o consumo de mercadorias como principal ingrediente. Assim, o melhor salário passou a ser a grande quimera e o preço devidamente pago para se acatar docilmente qualquer situação de vida, mesmo sendo ela num cativeiro.





[1] Historiador