OS FLAGELOS DO ALFABETIZADO E DO
NÃO ALFABETIZADO
Luciano Silva Menezes[1]
Quando
pensamos na formulação dos conceitos “alfabetizado” e “não alfabetizado”, imaginamos
um distanciamento estabelecido entre a palavra escrita e a palavra falada. A
fala parece que, pouco a pouco, foi sufocada pela escrita diante dessas
construções sociais e de suas mudanças. Essas fabricações se tornaram
flexíveis, afirmando, dentre outras coisas, categorias de analfabetismos, como:
analfabetos funcionais, semianalfabetos, analfabetos musicais e etc.
É
importante ressaltar que o aspecto aquisição
de conhecimento é fundamental na vida das pessoas, porém, o que separa o alfabetizado
do não alfabetizado é muito mais complexo do que o mero jogo das exclusões.
Apesar do considerado grau hegemônico dos sujeitos alfabetizados, é comum,
muitos exaltarem exaustivamente o “conhecimento” das inutilidades, além das
devoções aos inúteis. Às vezes até, apresentando e reproduzindo historinhas
para o convencimento geral – lições colonizadas que chegam, em graus
diferenciados, aos alfabetizados e aos analfabetos.
O
flagelo social do alfabetizado que santifica e engole o estúpido como
conhecimento, fortaleceu o pensamento de Mark Twain, quando afirmava: “o homem
que ler livros medíocres não terá nenhuma vantagem sobre o analfabeto”. O fato
pertinente é que, esse conhecimento banal é partilhado intensamente – a dispersão
da mediocridade, que é sempre bem elaborado de forma cuidadosa, como destacava
Kierkegaard.
Os
livros da moda, com suas “aventuras”, figuras e capas multicoloridas; as
revistas neuróticas da irracionalidade objetiva, informativas sobre: futebol,
novelas, carros, motos, motores, roupas, fama e famosos, horóscopos, “ração” do
próximo concurso ou do ENEM. Literaturas onde a essência costuma perder espaços
para uma ficção tautológica que grita: “acreditamos porque acreditamos.” Conteúdos
que, quando não desligam os cérebros, são dogmáticos, positivistas, de curiosidades
banais, às vezes até, ultras sintéticos.
Essas
instruções embaraçam o real sentido do processo de conhecimento e educação, num
agonizante desfecho sócio educacional. Assim, os instrutores se espalharam
pelas universidades, escolas, institutos, dando suas contribuições para o mundo
metafórico dos propósitos vazios ou externos – alheios. Essas ilusões absorvidas
pelo sujeito alfabetizado, de ethos
submisso e reverência cega em relação às tecnologias e a ciência, deu-lhe uma
enganosamente ideia de uma ampla visão de si mesmo e do mundo, aumentando
também a sua eterna sensação de insuficiência, em todas as esferas. Como o
Tântalo, sem nunca saciar a sua fome e a sua sede, caiu também numa desgraça
cíclica e eterna: nada é suficiente para a sua carga hereditária de usura.
Enquanto isso, alguns afirmam que, a visão mais limitada do não alfabetizado,
pode ser uma ferramenta útil para uma vida menos ansiosa e trágica.
“É uma pena não ser burro, eu não sofreria
tanto.” (Raul Seixas)