segunda-feira, 29 de junho de 2015


OS FLAGELOS DO ALFABETIZADO E DO NÃO ALFABETIZADO
                                                                          Luciano Silva Menezes[1]
Quando pensamos na formulação dos conceitos “alfabetizado” e “não alfabetizado”, imaginamos um distanciamento estabelecido entre a palavra escrita e a palavra falada. A fala parece que, pouco a pouco, foi sufocada pela escrita diante dessas construções sociais e de suas mudanças. Essas fabricações se tornaram flexíveis, afirmando, dentre outras coisas, categorias de analfabetismos, como: analfabetos funcionais, semianalfabetos, analfabetos musicais e etc.
É importante ressaltar que o aspecto aquisição de conhecimento é fundamental na vida das pessoas, porém, o que separa o alfabetizado do não alfabetizado é muito mais complexo do que o mero jogo das exclusões. Apesar do considerado grau hegemônico dos sujeitos alfabetizados, é comum, muitos exaltarem exaustivamente o “conhecimento” das inutilidades, além das devoções aos inúteis. Às vezes até, apresentando e reproduzindo historinhas para o convencimento geral – lições colonizadas que chegam, em graus diferenciados, aos alfabetizados e aos analfabetos.
O flagelo social do alfabetizado que santifica e engole o estúpido como conhecimento, fortaleceu o pensamento de Mark Twain, quando afirmava: “o homem que ler livros medíocres não terá nenhuma vantagem sobre o analfabeto”. O fato pertinente é que, esse conhecimento banal é partilhado intensamente – a dispersão da mediocridade, que é sempre bem elaborado de forma cuidadosa, como destacava Kierkegaard.
Os livros da moda, com suas “aventuras”, figuras e capas multicoloridas; as revistas neuróticas da irracionalidade objetiva, informativas sobre: futebol, novelas, carros, motos, motores, roupas, fama e famosos, horóscopos, “ração” do próximo concurso ou do ENEM. Literaturas onde a essência costuma perder espaços para uma ficção tautológica que grita: “acreditamos porque acreditamos.” Conteúdos que, quando não desligam os cérebros, são dogmáticos, positivistas, de curiosidades banais, às vezes até, ultras sintéticos. 
Essas instruções embaraçam o real sentido do processo de conhecimento e educação, num agonizante desfecho sócio educacional. Assim, os instrutores se espalharam pelas universidades, escolas, institutos, dando suas contribuições para o mundo metafórico dos propósitos vazios ou externos – alheios. Essas ilusões absorvidas pelo sujeito alfabetizado, de ethos submisso e reverência cega em relação às tecnologias e a ciência, deu-lhe uma enganosamente ideia de uma ampla visão de si mesmo e do mundo, aumentando também a sua eterna sensação de insuficiência, em todas as esferas. Como o Tântalo, sem nunca saciar a sua fome e a sua sede, caiu também numa desgraça cíclica e eterna: nada é suficiente para a sua carga hereditária de usura. Enquanto isso, alguns afirmam que, a visão mais limitada do não alfabetizado, pode ser uma ferramenta útil para uma vida menos ansiosa e trágica.
 “É uma pena não ser burro, eu não sofreria tanto.” (Raul Seixas)





[1] Historiador

quarta-feira, 3 de junho de 2015


QUAL O RESPEITO DADO AOS IDOSOS?
                                                               Luciano Silva de Menezes [1]
O nosso reino social converteu violentamente tudo em mercadoria descartável, transformando conhecimento, artes, culturas em objetos efêmeros e modismos. Nessas sociedades volúveis, os homens são também objetos transitoriamente mercantilizados em larga escala e a baixos custos; eles se tornaram figuras vendáveis, quase sempre, caricaturas daquilo que as sociedades disseram que elas são.
Nesse jogo das despersonalizações, o jovem é parte da engrenagem emudecida da sociedade que cultua os valores econômicos e estéticos. Logo, a velhice não é bem vinda nesses espaços sociais de racionalidade produtivista e de “padrão de beleza.” Melhor dizendo, enquanto a juventude permitir é necessário cumprir a risca o ad valoren sob o culto da aparência. Na democracia fantasiosa do “produzir e consumir,” não se pode abrir mão do rótulo estético construído principalmente nos espaços de adestramentos físicos denominados academias.
O envelhecimento do homem é uma questão de tempo e não um simples critério de espírito. O filósofo Cícero afirmava que os cabelos brancos e as rugas em si, não são normas e garantias de respeitabilidade. Esse respeito seria uma recompensa de um passado exemplar, porém, essa reflexão não se harmoniza com o quadro social vigente, onde o idoso está “fora da vida ativa”, enfraquecido e próximo da morte, quase sempre, não enxergado pela família e pela sociedade; permanece separado dos jovens por um fosso enorme que fora estabelecido. Confirmando que, existir por muito tempo não significa viver muito, sobretudo, para um idoso violentado, agredido e acuado.  Para as lutas sem glórias no fim da vida, só restou o enunciado de que “ninguém é bastante velho para não esperar viver mais um ano”.
Na sociedade onde o “ter” sobrepuja o “ser,” qualquer respeito à subjetividade do homem sucumbiu junto com a ética, após anos sendo escravizados por um rei conhecido como valor econômico. Na ilusão da sociedade moderna o sujeito não terá respeito e autonomia para se afirmar com homem. Nessa quimera das “possibilidades,” as aparências tomam o carimbo de realidade aceitável, e o envelhecimento se tornou a degradação daquilo que já não era considerado tão sublime – o homem sendo refutado em seu próprio espaço. 
Enfim, enquanto alguns imaginem que a riqueza, o prestígio e o poder são ferramentas possíveis de tornar a velhice mais aceitável, o objetivismo econômico rechaça essa ideia, ao passo que, o homem será somente um “prestigiado específico”, porém, seu adjetivo categórico será o “velho”.




[1] Historiador